A queda de braço entre Burity e Maílson, ministro da Fazenda de Sarney

Uma polêmica inesperada marcou o segundo governo de Tarcísio Burity, que se elegera no voto popular pelo PMDB em 1986: a rumorosa queda de braço que ele travou com o economista paraibano Maílson da Nóbrega, então ministro da Fazenda do governo do presidente José Sarney. O pano de fundo do desentendimento foi a pressão de Burity para obter facilidades do governo federal na solução de problemas econômico-financeiros do Estado e a recusa do ministro em ceder à pressão, que mobilizou lideranças de prestígio do PMDB como o senador paraibano Humberto Lucena, presidente do Congresso Nacional. Burity e Humberto já faleceram. Maílson reside em São Paulo e atua como consultor econômico na iniciativa privada, sendo colunista da revista ”Veja”, onde assina artigos nas versões impressa e online.

Maílson era secretário-geral do ministério da Fazenda, ocupado por Bresser Pereira, e passou a responder interinamente pela pasta com a saída dele em 17 de dezembro de 1987. A interinidade estendeu-se até o dia 5 de janeiro de 1988, quando Maílson foi efetivado como titular pelo presidente. No livro “Notícias do Planalto”, o jornalista Mário Sérgio Conti relata que Maílson foi nomeado após passar por uma sabatina com o empresário Roberto Marinho, dono das Organizações Globo. Quando Maílson assumiu o ministério, a Paraíba se debatia na pior crise financeira de sua história, como resultado de uma administração recente conduzida pelos governadores Wilson Braga e Milton Cabral, que levaram o Estado aos limites do endividamento. No seu livro “Burity – Esplendor & Tragédia”, o jornalista Severino (Biu) Ramos dedicou um capítulo ao estremecimento de relações entre o governador e o ministro, este chamado de “ingrato” por não liberar demandas do interesse da Paraíba.

Ramos conta que Burity apostou todas as fichas na presença de Maílson no comando da política econômica do país para salvar o Estado do caos econômico e financeiro em que se afundara desde o término do seu primeiro governo em 1982. Burity chegou a oferecer uma grande recepção a Maílson na primeira visita que este fez à terra natal, um mês depois de sua posse. Ele foi recebido no aeroporto Castro Pinto com honras militares, participou de um jantar de 300 talheres no Restaurante Panorâmico do Esporte Clube Cabo Branco e foi saudado pelos jornais com uma nota do governo de conteúdo nitidamente apologético. Dizia a nota: “A Paraíba recebe hoje o Ministro da Fazenda, Maílson Ferreira da Nóbrega, com a alegria de quem se reencontra com as suas raízes mais profundas”. Historiava, ainda, as origens de Maílson na várzea de Cruz do Espírito Santo e dava boas vindas ao ministro.  A fase de encantamento da Paraíba com o seu filho ilustre, porém, duraria apenas seis meses, de acordo com o minucioso relato de Severino Ramos.

Burity e os auxiliares da área econômica foram levados às “ruas da amargura” quando dos entendimentos para rolagem da dívida astronômica que a Paraíba ostentava para com o Tesouro Nacional, na época calculada em cruzados. O ministério ordenou o bloqueio das contas do governo em todas as agências bancárias, o que deixaria Burity sem condição de emitir qualquer cheque em nome do Estado. O bloqueio foi uma represália ao não pagamento da parcela do mês de junho do serviço da dívida interna. Burity não escondeu que pretendia um tratamento diferenciado por parte do governo federal, já que mesmo tendo anulado 28 mil contratos de servidores públicos e extinguido dez secretarias, as finanças do Estado continuavam no vermelho. “Não posso fazer milagres”, sustentava ele.  Disposto a brigar com Maílson, recorreu ao Judiciário para desbloquear as contas do governo, o que foi determinado pelo juiz Severino Batista do Nascimento contra o Banco do Brasil, liberando recursos do FPE e ICM. Brasília, através de Maílson, apertava o cerco contra a contratação de operações de empréstimo pela Paraíba, enquanto Burity acionava a bancada federal para fazer pressão. No fragor da luta, Maílson evitou dar explicações sobre sua posição no processo a órgãos de imprensa locais.

Já fora do poder, depois de 20 anos da tempestade de desinformações e desencontros, ele resolveu revelar as razões que o levaram ao posicionamento incompreendido pelos paraibanos. E o fez num depoimento a Severino Ramos, reproduzido, na íntegra, no seu livro sobre Burity. Maílson disse que Burity lhe apresentou pedido de empréstimo e rolagem da dívida inteiramente fora dos padrões. E respondeu-lhe, sem titubear, que o governo federal não tinha como aprovar a proposta. “Posso entender a decepção do governador. A classe política brasileira estava (e ainda está) acostumada a medidas para contornar regras e delas se afastar. Como os demais, ele deveria acreditar que eu daria um “jeitinho” para ajudar a Paraíba. Parecia inadmissível a Burity que um paraibano à frente do Ministério da Fazenda não constituísse um trunfo para obtenção de apoio às demandas do governo estadual”. O ex-ministro narrou que antes havia enfrentado pressões do governador de São Paulo, Orestes Quércia, para tratamento excepcional às dívidas daquele Estado, e não cedeu. Garantiu que renunciaria ao ministério se fosse obrigado por Sarney a ceder a pressões. Maílson lamentou que Burity e Humberto Lucena não tenham entendido que ele, como ministro, não poderia abrir exceções para o seu próprio Estado. “Biu” Ramos informou que Maílson, no ministério, chegou a cogitar a hipótese de entrar na política pela Paraíba, como candidato a deputado federal. Tal projeto não prosperou – é possível que Maílson tivesse consciência de que não teria votos suficientes na Paraíba para se eleger.